Menorca · Mahón

O que os britânicos deixaram em Mahón

Quase um século sob bandeira inglesa, um governador que mudou a capital de sítio e uma vila baptizada em honra de Jorge III.

Atualizado · 7 de setembro de 2026

Mahón, a cosmopolitan City in the 18th century
Foto de capa de «Mahón, a cosmopolitan City in the 18th century», um tour de Menorca C.

Quase toda a gente que chega a Mahón pela primeira vez faz a mesma pergunta: porque é que esta cidade não se parece com nenhuma outra do Mediterrâneo espanhol? A resposta está no século XVIII, quando Menorca passou quase cem anos sob administração britânica, repartidos por três períodos distintos.

Não foi uma ocupação de passagem. Os britânicos mudaram a capital, construíram uma vila inteira de raiz, transformaram o porto e mudaram quem mandava na ilha. Este guia conta essa história com as datas e os nomes verificados nos museus da ilha, e assinala o que resta hoje quando se caminha por Mahón.

Em resumo

Períodos britânicos
Três: 1708-1756, 1763-1782 e 1798-1802
Tratado de Utrecht
14 de abril de 1713
Capital para Mahón
Fevereiro de 1722, por ordem de Richard Kane
Governador central
Sir Richard Kane, residente no castelo de Sant Felip
População da ilha
Cerca de 30.000 habitantes nesse século
O fim
Tratado de Amiens, 1802

Cem anos que mudaram a ilha

Da esquadra anglo-holandesa de 1708 ao despacho que chegou tarde em 1802.

Porque é que os britânicos queriam Menorca

A posição de Menorca no centro do Mediterrâneo ocidental despertou o interesse de todas as grandes potências militares da época. Britânicos, franceses e espanhóis disputaram a ilha ao longo de todo o século XVIII, numa sucessão de ocupações. A dominação britânica foi de longe a mais longa, e é a que deixou a marca mais visível no urbanismo, na arquitetura, na cultura e na língua.

A chegada deu-se em setembro de 1708, quando uma esquadra anglo-holandesa tomou a ilha durante a Guerra da Sucessão Espanhola. Ao início reconheceu-se a soberania dos Habsburgos, mas a ocupação depressa se tornou um domínio inglês efetivo. Ficou formalizado a 14 de abril de 1713 com o Tratado de Utrecht, pelo qual a Espanha teve de ceder a Inglaterra o rochedo de Gibraltar e a ilha de Menorca.

  • Setembro de 1708: Uma esquadra anglo-holandesa toma a ilha.
  • 14 de abril de 1713: O Tratado de Utrecht cede Menorca e Gibraltar a Inglaterra.
  • O motivo: Um ponto de apoio no centro do Mediterrâneo, com um porto natural excecional.

Dica: Ponha-se em qualquer miradouro sobre o porto de Mahón e percebe em dois segundos porque é que meia Europa se bateu por esta ilha.

Richard Kane e a mudança da capital

O primeiro e mais notável dos governadores britânicos foi Sir Richard Kane, que residia no castelo de Sant Felip, à entrada do porto. O seu nome está ligado a quase tudo o que mudou na ilha durante aqueles anos.

A decisão mais pesada chegou em fevereiro de 1722. Incomodado com a oposição que encontrava em Ciutadella, onde a nobreza e o clero eram abertamente contrários aos britânicos, Kane mudou a capital da ilha para Mahón. Foi uma alteração de fundo: a velha capital fechou-se sobre si mesma, a viver de glórias passadas, enquanto Mahón, então muito mais pequena, começou a crescer depressa graças ao seu porto.

A Kane deve-se também a construção de uma estrada que atravessava a ilha inteira, pensada para deslocar tropas de um extremo ao outro. Numa Menorca de caminhos de carro, aquilo foi uma obra de outra escala.

  • Fevereiro de 1722: Kane muda a capital de Ciutadella para Mahón.
  • O motivo real: A oposição da nobreza e do clero de Ciutadella aos britânicos.
  • A sua outra grande obra: Uma estrada a atravessar toda a ilha, apta para manobras militares.

Dica: A mudança de 1722 explica uma rivalidade entre Mahón e Ciutadella que na ilha ainda se comenta com meio sorriso.

Um porto que se encheu de gente de todo o lado

Com a capital e a Royal Navy em Mahón, o porto transformou-se. Construíram-se infraestruturas defensivas importantes e melhoraram-se os serviços, e a atividade comercial atraiu comerciantes e armadores britânicos, gregos e italianos. É essa mistura que explica a fama de cidade cosmopolita que Mahón arrasta desde então.

Apareceu ainda uma atividade marítima muito lucrativa: o corso. Os corsários saqueavam navios inimigos com autorização do governo, e em Mahón aquilo movimentava muito dinheiro.

A população da ilha cresceu até aos 30.000 habitantes, na maioria camponeses e artesãos. E em Mahón surgiu algo novo: uma burguesia enriquecida com o comércio do porto que chegou a disputar o poder à nobreza tradicional de Ciutadella. A ilha não mudou só de capital, mudou de mãos.

  • Quem chegou: Comerciantes e armadores britânicos, gregos e italianos.
  • O corso: Saque de navios inimigos com autorização do governo, muito rentável.
  • Uma classe nova: A burguesia de Mahón chegou a disputar o poder à nobreza de Ciutadella.

O que chegou além dos soldados

O século XVIII trouxe a Menorca as Luzes, e nota-se na política e na cultura da ilha. Dois nomes resumem-no: o pintor Pasqual Calbó Caldés e a Societat Maonesa, uma entidade iluminista nascida naquele ambiente.

Há um pormenor que costuma surpreender: sob administração britânica, Menorca tornou-se um expoente da proliferação do catalão escrito no século XVIII, que continuou a ser usado na administração pública. Os britânicos também não mexeram na religião: mantiveram a continuidade do culto católico, apesar das diferenças entre os anglicanos e a diocese menorquina.

É uma ocupação militar pouco habitual, e explica porque é que a marca britânica em Menorca se sente mais no tecido urbano, no comércio e no ambiente da cidade do que numa rutura cultural.

  • Pasqual Calbó Caldés: O pintor de referência das Luzes menorquinas.
  • Societat Maonesa: Entidade iluminista surgida na Mahón daqueles anos.
  • A língua: O catalão escrito proliferou e manteve-se na administração pública.

O parêntesis francês e a vila chamada Georgetown

A 18 de abril de 1756, dia de Páscoa, 12.000 soldados franceses desembarcaram em Ciutadella sob o comando do duque de Richelieu. Os 300 ingleses da guarnição tinham-se retirado para Mahón nesse mesmo dia, e a velha capital não ofereceu resistência. As tropas francesas atravessaram a ilha para cercar o castelo de Sant Felip.

A 20 de maio começou o combate naval em frente à entrada do porto de Mahón, entre a esquadra francesa do almirante La Galissonnière e a inglesa do almirante Byng. Depois de uma tarde inteira de luta, a vitória foi para os franceses. Os britânicos cercados em Sant Felip eram apenas 2.500 homens às ordens do governador Sir William Blakeney; resistiram, mas assinaram a capitulação a 29 de junho. Da breve etapa francesa resta uma vila inteira: Sant Lluís, traçada a direito sobre o matagal de Binifadet, com uma igreja dedicada ao rei São Luís ao centro.

Pela paz de Paris de 1763, a França devolveu Menorca a Inglaterra. E em fevereiro de 1771, nessa segunda dominação, os britânicos fundaram junto à margem do porto um núcleo novo, traçado com uma visão larga de futuro e baptizado Georgetown em honra do rei Jorge III. Desenhou-o o engenheiro escocês Patrick Mackellar, com um traçado ortogonal em torno de uma praça central. Depois da reconquista espanhola passou a chamar-se Villacarlos, e desde 1985 é Es Castell.

  • 18 de abril de 1756: Richelieu desembarca em Ciutadella com 12.000 homens.
  • 29 de junho de 1756: Capitulação britânica no castelo de Sant Felip.
  • 1763: A paz de Paris devolve Menorca a Inglaterra.
  • Fevereiro de 1771: Funda-se Georgetown, hoje Es Castell.

Dica: Sant Lluís e Es Castell são duas vilas em xadrez levantadas por dois exércitos inimigos com quinze anos de diferença. Vistas no mapa, são muito parecidas.

Como tudo acabou: 1782 e 1802

A 19 de agosto desembarcou nas enseadas de Sa Mesquida e Alcaufar uma esquadra franco-espanhola de 52 navios sob o comando do duque de Crillón. O castelo de Sant Felip aguentou um cerco longo até os ingleses se renderem, a 4 de fevereiro de 1782.

Em 1797 criou-se bispado próprio na ilha, separando-a da diocese de Maiorca, com Antoni Vila i Camps como primeiro bispo. Com isso reapareceram as velhas rivalidades entre Ciutadella e Mahón, agora sobre em qual das duas cidades devia ficar a sé episcopal.

Faltava ainda uma terceira dominação inglesa, que durou apenas de 1798 a 1802. A aliança de Espanha com a primeira república francesa, no tempo de Carlos IV, provocou a rutura com Inglaterra e a consequente conquista da ilha. Em 1802, pelo Tratado de Amiens, Menorca voltou definitivamente a mãos espanholas. E aqui está a melhor anedota de toda a história: enquanto a ilha era entregue, apareceu no porto de Mahón um navio com um despacho urgente de Londres a ordenar ao governador britânico que não a rendesse. Chegou tarde.

  • 4 de fevereiro de 1782: Os ingleses rendem-se em Sant Felip ao duque de Crillón.
  • 1798-1802: Terceira e última dominação britânica.
  • 1802: O Tratado de Amiens devolve Menorca a Espanha.

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Toda esta história está escrita nas ruas de Mahón, mas não traz placas. O porto, a cidade que cresceu à sua volta e as casas daquela burguesia comerciante percebem-se muito melhor com alguém a contá-las enquanto se caminha.

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Perguntas frequentes

Quanto tempo foi Menorca britânica?+

Houve três períodos de dominação britânica durante o século XVIII: de 1708 a 1756, de 1763 a 1782 e de 1798 a 1802. Pelo meio houve uma ocupação francesa e alguns anos de reintegração na Coroa espanhola. De todas as dominações estrangeiras do século, a britânica foi a mais longa.

Porque é que a capital passou de Ciutadella para Mahón?+

Mudou-a o governador Sir Richard Kane em fevereiro de 1722, incomodado com a oposição que encontrava em Ciutadella, onde a nobreza e o clero eram contrários aos britânicos. Mahón era muito mais pequena mas crescia depressa graças ao porto, e dava mais jeito aos governantes.

Quem foi Richard Kane?+

O primeiro e mais notável dos governadores britânicos de Menorca. Residia no castelo de Sant Felip, à entrada do porto de Mahón. Além de mudar a capital, impulsionou a construção de uma estrada que atravessava a ilha inteira, pensada para manobras militares.

O que foi Georgetown?+

Uma vila nova que os britânicos fundaram em fevereiro de 1771 junto à margem do porto de Mahón, baptizada em honra do rei Jorge III. O engenheiro escocês Patrick Mackellar traçou-a com um plano ortogonal em torno de uma praça central. Depois da reconquista espanhola passou a chamar-se Villacarlos, e desde 1985 chama-se Es Castell.

Quando é que Menorca deixou de ser britânica?+

Em 1802, com o Tratado de Amiens, que devolveu a ilha definitivamente a Espanha. Conta-se que, enquanto a ilha era entregue, chegou ao porto de Mahón um navio com um despacho urgente de Londres a ordenar ao governador que não a rendesse. Chegou demasiado tarde.

Os britânicos mudaram a língua e a religião da ilha?+

Não. Menorca tornou-se um expoente da proliferação do catalão escrito no século XVIII, que continuou a usar-se na administração pública. E os britânicos mantiveram a continuidade da religião católica, apesar das diferenças entre os anglicanos e a diocese menorquina.

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